Como os pre-rolls passaram da prateleira de descontos à iguaria top shelf?
- 1. Onde tudo começou
- 2. Vapes, outro formato conveniente
- 3. O próximo passo: extratos
Muito antes de qualquer forma de legalização, a ideia da maconha legal sempre foi imaginada tendo os pre-rolls como destaque. Isso faz sentido considerando o antigo caso de amor do mundo com o tabaco e a popularidade dos baseados, então, quando as pessoas pensavam em como seria a cannabis sem proibição, desenhavam maquetes de maços verdes estilo cigarro e blunts vendidos como charutos.
Onde tudo começou
Na primeira década de legalização, essas expectativas em relação aos pre-rolls se concretizaram, mas geralmente como um produto de baixa qualidade, opção de desconto ou até mesmo brindes. Hoje em dia, porém, os pre-rolls vivem seu momento, indo do fundo do poço às prateleiras mais altas dos dispensários. Como um microcosmo das mudanças iniciais com a legalização, a explosão dos pre-rolls mostra como a comunidade da cannabis é obcecada por qualidade em vez de quantidade e busca uma relação mais próxima com o consumo.

A expectativa de cigarros de cannabis vendidos como cigarro chegou assim que a legalização entrou no mercado, tanto para uso medicinal, como na Califórnia, quanto recreativo, como Colorado e Washington. Mas cannabis não é tabaco, e mesmo com boa saída, os fumantes de maconha querem ver, cheirar, tocar e bolar sua própria flor — uma relação muito mais íntima com a planta do que a maioria dos fumantes de cigarro tem com o tabaco. Por isso, enquanto os melhores buds eram vendidos em porções de 3,5g ou 28g, os pre-rolls eram recheados com buds pequenos, resíduos e aparas, e oferecidos como brindes ou opções baratas para turistas e iniciantes.
“Pre-rolls rapidamente se tornaram os cachorros-quentes da maconha recreativa no Colorado,” escreveu um morador do Colorado em 2015. “São baratos de produzir, fáceis de consumir e extremamente práticos — mas será que você quer mesmo saber o que tem dentro? Clientes que saem dos dispensários com um baseado de brinde sentem que ganharam na loteria — mas podem não pensar o mesmo depois de fumar.”
Ao sair do mercado ilegal para o legal, a venda de maconha era sobre ver para crer. As flores ficavam em potes grandes, em sistema de delicatessen, permitindo que os clientes sentissem o aroma das strains e vissem os buds. Não dá para ver a maconha dentro do pre-roll, tampouco cheirar, e depois de moída e enrolada, a erva tende a ressecar, ficando áspera e desagradável, especialmente quando, como nos primeiros pre-rolls, eram usados buds medianos ou de baixa qualidade.
Vapes, outro formato conveniente
Praticamente ao mesmo tempo, os cartuchos de vape explodiram na indústria, ocupando ainda mais espaço no mercado de conveniência e dando aos operadores uma forma ainda mais lucrativa de converter maconha de baixa qualidade, sobras e aparas em algo irreconhecível para os clientes.
Não demorou para que as mesmas práticas duvidosas que tornaram os pre-rolls os cachorros-quentes dos baseados também transformassem os vapes de THC em misturas ainda mais misteriosas. Em vez de só vender maconha ruim, produtores do mercado ilegal começaram a misturar seus óleos com Acetato de Vitamina E, causando uma série de doenças diretamente ligadas ao uso de vape de THC. À medida que a legalização da cannabis gerava novos mercados de produtos, ficava claro que a qualidade teria de ser diferencial não só para a flor, mas também para vapes, pre-rolls e o que mais estiver nas prateleiras do dispensário.

Foi rápido, mas conforme o mercado amadureceu e as marcas começaram a se diferenciar pela qualidade, os pre-rolls premium substituíram os recheados com aparas e começaram a voar das prateleiras. Específicos de cada strain, com sabores exclusivos, tubos personalizado e enrolados à mão com piteiras diferenciadas: o segredo para vender maconha pronta para fumar foi seguir o caminho do charuto e não o do cigarro.
“Felizmente, hoje existe tecnologia para fabricar baseados realmente enrolados em escala comercial,” conta Kyle Loucks, CEO da RollPros. “Flor fresca, resinada, moagem grossa, densidade homogênea e fluxo de ar perfeito são as marcas dessa nova era dos pre-rolls. O verbo é enrolar. Bons baseados são enrolados, não recheados.”

Baseados enrolados à mão se tornaram um luxo pelo qual os clientes topam pagar caro. Diferente dos antigos brindes de dispensário, frouxamente recheados, os enrolados à mão refletem uma flor de qualidade que vale o tempo do enrolador e garantem uma experiência que simplesmente não se consegue em cones prontos.
O próximo passo: Extratos
Chega a infusão. Trippy sticks, tarantulas, twax, donuts, hash holes ou simplesmente baseados infusionados: a mistura de concentrados com flor em um baseado pronto para fumar mudou o jogo.
O surgimento do verdadeiro joint top shelf acompanhou a cultura se voltando para o hash rosin sem solventes, o creme de la creme dos concentrados de cannabis. Enrolar um baseado com uma “cobra” de rosin terpenado no meio, fazendo com que o doobie queime devagar e crie um buraco perfeito de hash derretido no centro, levou os pre-rolls a outro patamar. Além da potência, esses enrolados à mão são luxuosos e, como charutos premium, a maioria dos fumantes simplesmente não tem a habilidade necessária para fazer igual. No varejo — seja legal ou tradicional — um hash hole pode custar mais de R$500. Mas colaborações limitadas, como ocorre com tênis ou cards colecionáveis, ainda tornam hash holes raros em certas cidades.

"Estamos sempre inovando," contou Fidel, o criador do Fidel’s Hash Holes, uma das marcas mais famosas do segmento, à Los Angeles Magazine. "Estou sempre buscando os trendsetters que cultivam flores de altíssima qualidade e posso combinar com meu rosin. Ou o contrário, combinando minha flor com o rosin deles. Tentar mesmo expandir. Hoje, relevância também é sobre colaborações, tanto quanto sobre produto superior."
É claro que ainda há várias marcas misturando concentrados diluídos com terpenos de garrafa e buds de baixa qualidade — uma variação moderna do bom e velho “lixo virou lucro” — mas os consumidores exigentes, o tipo de stoner que antes evitava pre-roll, agora compram cada vez mais hash holes e pre-rolls premium, sustentando um mercado de marcas artesanais e rollers levando o pre-roll a outro nível.
Pode não ser igual enrolar o próprio, mas os pre-rolls evoluíram muito nesse curto período de legalização. Ninguém sabe qual será a próxima tendência dos baseados prontos para fumar, mas estaremos de olho para acender assim que surgir.
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