Mulheres e Maconha: Um Guia Abrangente sobre Cannabis e a Saúde Feminina

10 April 2024
Descubra os potenciais benefícios e riscos do uso de cannabis para a saúde das mulheres, com base em pesquisas e opiniões especializadas.
10 April 2024
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Mulheres e Maconha: Um Guia Abrangente sobre Cannabis e a Saúde Feminina

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  • 1. Uso recreativo em homens e mulheres: diferenças e riscos
  • 1. a. Maior potencial de abuso em mulheres vs homens
  • 1. b. Diferença nos efeitos agudos, incluindo efeitos colaterais
  • 1. c. Sintomas de abstinência diferentes em mulheres vs homens
  • 2. Fertilidade, gravidez e amamentação
  • 2. a. Uso de cannabis e fertilidade
  • 2. b. Uso de cannabis e gravidez
  • 2. c. Uso de cannabis e amamentação
  • 3. Uso medicinal da maconha para questões femininas
  • 3. a. Questões relacionadas ao ciclo
  • 3. b. Transtorno orgásmico feminino
  • 3. c. Endometriose
  • 3. d. Sintomas da menopausa
  • 4. Conclusão

A cannabis, antes uma substância ilícita envolta em controvérsias, está cada vez mais aceita e legalizada em várias jurisdições. Essa mudança levou a uma alteração significativa nos padrões de uso, com mais mulheres recorrendo à cannabis por diversos motivos. Embora os homens ainda sejam maioria entre os usuários, a diferença entre os gêneros está diminuindo.

Curiosamente, as mulheres reagem de forma diferente à cannabis em comparação aos homens, tanto em sintomas agudos quanto em dependência e abstinência. Além disso, a cannabis tem implicações únicas para a saúde feminina devido à presença de receptores endocanabinoides por todo trato reprodutivo feminino. Diante dessas diferenças e possíveis impactos à saúde, é fundamental explorar o tema do uso de cannabis entre as mulheres. Este artigo tem como objetivo fornecer um guia abrangente sobre cannabis e saúde feminina, abordando possíveis benefícios, riscos e tudo o que há entre eles.

Uso Recreativo em Homens e Mulheres: Diferenças e Riscos

Cada pessoa reage à cannabis de maneira diferente, mas existem alguns padrões gerais que distinguem o uso masculino do feminino. Um desses padrões é o potencial de abuso e dependência.

Maior Potencial de Abuso em Mulheres vs Homens

Os critérios aceitos para diagnosticar o transtorno por uso de cannabis (TUC) podem não ser cientificamente robustos e mais um resquício da era da guerra às drogas, mas segundo eles, o TUC afeta aproximadamente 10% dos usuários de cannabis, e as mulheres podem ser mais suscetíveis do que os homens.

Pesquisas indicam que as mulheres desenvolvem dependência à cannabis mais rapidamente do que os homens, um processo chamado “telescoping”. Isso significa que, embora homens e mulheres possam começar a usar cannabis na mesma idade, as mulheres tendem a desenvolver dependência em menos tempo. Um estudo encontrou que o tempo entre o primeiro uso de cannabis e o início do TUC foi mais curto entre as mulheres (4,7 anos vs. 5,8 anos para os homens).

Além disso, as mulheres podem apresentar sintomas de dependência de cannabis mais graves. Embora os homens sejam mais propensos ao diagnóstico de TUC, as mulheres relatam sintomas mais severos, incluindo maior intensidade de abstinência e mais problemas de saúde mental coexistentes. Isso pode estar relacionado à influência de hormônios sexuais específicos das mulheres, mas mais pesquisas são necessárias para entender completamente os mecanismos biológicos por trás dessas diferenças.

Diferença nos Efeitos Agudos, Incluindo Efeitos Colaterais

Homens e mulheres podem sentir efeitos agudos diferentes ao usar cannabis. Homens tendem a relatar aumento de apetite, melhora da memória, entusiasmo, alteração na percepção do tempo e aumento do interesse musical quando estão chapados. Já as mulheres relatam mais perda de apetite e vontade de limpar.

Evidências iniciais sugerem que as mulheres podem ser mais sensíveis à cannabis ou aos canabinoides em geral. Estudos em animais e humanos corroboram isso. Mulheres relatam efeitos mais intensos com doses menores de THC, indicando uma sensibilidade maior à substância.

Estudos pré-clínicos com roedores mostram que fêmeas são mais sensíveis aos efeitos recompensadores e reforçadores dos canabinoides. Elas adquirem autoadministração mais rápida, consomem maiores quantidades e demoram mais para extinguir essa resposta. Fêmeas também apresentam mais reinstalação induzida por pistas/estresse e são mais sensíveis aos efeitos sedativos, antinociceptivos e motores dos canabinoides.

 

Women and Weed: A Comprehensive Guide to Cannabis and Women's Health: A young woman lying on a bed looking into the camera with some weed paraphernalia next to her

A maconha afeta os sexos de maneiras diferentes.
 

Já os estudos clínicos em humanos têm resultados variados. Enquanto alguns não encontraram diferenças relacionadas ao sexo nos efeitos agudos subjetivos, outros relataram maiores efeitos induzidos pelo THC em mulheres, e alguns em homens. De modo geral, mulheres tendem a ser mais sensíveis aos efeitos subjetivos de doses baixas de THC, e os homens, de doses altas. Mulheres também costumam relatar efeitos reforçadores mais fortes e têm mais chance de pedir o encerramento do estudo, mesmo sem diferenças nos relatos subjetivos de “brisa” ou taquicardia em relação aos homens.

Em resumo, embora sejam necessários mais estudos, as pesquisas atuais sugerem que mulheres podem ser mais sensíveis aos efeitos agudos da cannabis e também podem ter efeitos diferentes dos homens.

Sintomas de Abstinência Diferentes em Mulheres vs Homens

No que diz respeito aos sintomas de abstinência da cannabis, mulheres podem senti-los de maneira diferente dos homens. Os achados são variados, com alguns estudos sugerindo que as mulheres relatam mais sintomas de abstinência, e outros não encontrando diferenças significativas.

Um estudo apontou que mulheres relataram mais sintomas de abstinência que homens (7,9 sintomas vs. 6,2, respectivamente). Elas estavam mais propensas a apresentar irritabilidade, ataques de raiva e náusea durante a última tentativa de parar, em comparação aos homens.

A gravidade dos sintomas relatados não foi significativamente diferente entre mulheres e homens. Entretanto, mulheres que relataram nervosismo/ansiedade, inquietação ou aumento da agressividade declararam que esses sintomas foram mais intensos, em comparação aos homens que também mencionaram esses sintomas.

Homens relataram mais frequentemente insônia e sonhos vívidos durante a abstinência, enquanto mulheres relataram mais náusea e ansiedade como sintomas.

Vale destacar que alguns estudos onde não se encontraram diferenças significativas nos sintomas de abstinência mostraram que os homens relataram maior uso e dependência de cannabis, sugerindo que uma menor dependência feminina pode explicar a ausência de diferenças nesses estudos.

Enfim, é importante que mulheres pensando em parar o uso de cannabis estejam cientes desses possíveis sintomas e busquem apoio adequado para lidar com eles.

 

Benefícios Potenciais Riscos Potenciais
Alívio das cólicas menstruais Maior risco de transtorno por uso de cannabis
Melhora da função sexual Efeitos negativos na fertilidade e gravidez
Controle dos sintomas da endometriose Risco aumentado de ansiedade e depressão
Alívio dos sintomas da menopausa Possíveis interações com outros medicamentos

Potenciais benefícios e riscos do uso de cannabis para a saúde feminina.

Fertilidade, Gravidez e Amamentação

Os efeitos da cannabis na saúde reprodutiva feminina ainda não são totalmente compreendidos, devido à limitada e conflitante quantidade de pesquisas. A maioria dos estudos disponíveis é observacional, baseada em relatos pessoais e realizados há muito tempo, quando os produtos de maconha tinham teores de THC muito inferiores aos de hoje.

Uso de Cannabis e Fertilidade

A literatura disponível sobre os efeitos da maconha na saúde reprodutiva feminina é limitada e deriva, em grande parte, de mulheres submetidas à reprodução assistida, e não de mulheres saudáveis. Estudos sobre os efeitos do THC na fertilidade apresentam resultados divergentes. Alguns sugerem que o uso de maconha pode impactar negativamente a fertilidade ao afetar níveis hormonais e ovulação, enquanto outros encontram pouca relação entre o uso de maconha e as taxas de concepção espontânea.

 

Women and Weed: A Comprehensive Guide to Cannabis and Women's Health: Marijuana leaves, buds, and a pregnancy test

Seja como for, maconha não é contraceptivo.
 

Estudos iniciais em animais mostraram que exposição aguda ao THC poderia atrasar a ovulação. A exposição crônica ao THC em primatas não-humanos resultou em anovulação, níveis hormonais anormais e aumento do comprimento do ciclo menstrual. Entretanto, com o desenvolvimento de tolerância ao THC, a ciclicidade menstrual, a ovulação e os níveis hormonais acabaram sendo restaurados.

Estudos em humanos mostraram que mulheres que fumaram maconha no ano anterior à tentativa de engravidar tinham o dobro do risco de infertilidade por disfunção ovulatória. Por outro lado, alguns estudos não encontraram relação significativa entre o uso de maconha e o tempo para concepção.

Uso de Cannabis e Gravidez

Compostos da cannabis podem atravessar a placenta e chegar ao feto, potencialmente afetando seu desenvolvimento. Estudos em humanos e animais sugerem que o uso materno de cannabis pode ter impactos negativos no feto. O uso frequente de cannabis durante a gravidez está associado a baixo peso ao nascer e outros desfechos negativos.

Além disso, crianças e jovens expostos à cannabis no útero podem ter diversos efeitos comportamentais, como déficit de atenção, distúrbios emocionais, aumento da hiperatividade e impulsividade, distúrbios do sono e maior probabilidade de uso de substâncias. Diante desses riscos, gestantes devem ser orientadas a evitar o uso. Para quem não conseguir parar totalmente, devem ser oferecidas opções de redução de danos.

Mulheres que usam cannabis para aliviar sintomas como enjoo matinal devem ser encorajadas a usar alternativas reconhecidas e mais bem estudadas. Vale ressaltar que os efeitos do uso de canabidiol (CBD) durante gravidez ou amamentação são atualmente desconhecidos. Estudos clínicos e pré-clínicos são urgentes para avaliar a segurança do CBD nesses períodos.

 

Women and Weed: A Comprehensive Guide to Cannabis and Women's Health: A pregnant woman in a cannabis garden

Pare de usar maconha na gravidez, se possível.

Uso de Cannabis e Amamentação

O uso de cannabis durante a amamentação é um tema preocupante, já que o consumo recreativo e medicinal cresce entre mulheres em idade reprodutiva. A passagem do THC, principal composto psicoativo da cannabis, para o leite materno não foi extensivamente estudada. No entanto, um estudo sugeriu que o THC é excretado no leite materno em quantidades moderadas, com uma razão leite/plasma de até 8:1 em usuárias intensas.

O uso crônico pode levar ao acúmulo de THC no leite materno em altas concentrações. Isso preocupa pois o cérebro do bebê ainda está se formando, e o THC pode, teoricamente, prejudicar esse desenvolvimento. Um estudo de 1990 indicou que a exposição ao THC no primeiro mês de vida pode resultar em menor desenvolvimento motor ao primeiro ano de idade da criança. No entanto, não existem pesquisas adequadas sobre os efeitos no desenvolvimento neurológico a longo prazo.

Letargia, menos mamadas e duração menor das mamadas são outros relatos após exposição ao THC através do leite. Além disso, o humor e o julgamento das mães podem ser afetados pela maconha, impactando a capacidade de cuidar do bebê.

Devido à escassez de dados a longo prazo sobre crianças expostas à cannabis pelo leite, as opiniões dos profissionais de saúde quanto à amamentação por usuárias de cannabis variam. De modo geral, recomendações profissionais sugerem que mães que amamentam evitem o uso. Os efeitos do uso de canabidiol (CBD) durante a amamentação são desconhecidos, e mais pesquisas são necessárias para avaliar sua segurança neste período.

Uso Medicinal da Maconha para Questões Femininas

A maconha medicinal pode ser útil em questões da saúde da mulher, mesmo que os estudos mostrem diferenças de sexo mínimas quanto às condições tratadas e à eficácia da cannabis medicinal.

Questões Relacionadas ao Ciclo

Muitas mulheres sentem os seguintes sintomas durante o ciclo menstrual:

  • ansiedade,
  • oscilações de humor,
  • irritabilidade,
  • cólicas.

Relatos anedóticos sugerem que o CBD pode ajudar na ansiedade, o THC pode ajudar nas oscilações de humor, irritabilidade e cólicas, e ambos ajudam a relaxar o músculo uterino onde ocorrem as cólicas, aliviando muitos sintomas da TPM.

Como exemplo de pesquisa mais rigorosa, um estudo recente encontrou que o CBD pode realmente ajudar no controle dos sintomas menstruais. Participantes fizeram uso de cápsulas de CBD durante três meses e relataram redução de sintomas como irritabilidade, ansiedade e estresse. Os escores de depressão não foram impactados. Os resultados sugerem que o CBD pode ser uma opção interessante para mulheres que buscam controlar sintomas do período menstrual. Entretanto, mais pesquisas são necessárias para comparar o efeito do CBD com placebo e para otimizar o consumo de CBD no alívio dos sintomas menstruais.

 

Women and Weed: A Comprehensive Guide to Cannabis and Women's Health: Some marijuana-smoking paraphernalia and cannabis-based medicines

O potencial da maconha para problemas femininos é promissor.

Transtorno Orgásmico Feminino

O transtorno orgásmico feminino (TOF) é uma condição comum que afeta até 41% das mulheres no mundo. Pelo menos quatro estados norte-americanos estão considerando incluir o TOF como condição elegível para maconha medicinal, apoiados por pesquisas crescentes que mostram que a cannabis pode melhorar significativamente frequência, facilidade e satisfação do orgasmo.

Existem teorias sugerindo que a cannabis pode ajudar mulheres com TOF de origem vitalícia, adquirida ou situacional. A teoria da desabituação propõe que o THC pode ajudar a eliminar o hábito da distração durante o sexo, explicando por que mulheres que nunca tinham tido orgasmo conseguiram alcançar orgasmo ao usar cannabis antes da relação.

A teoria da neuroplasticidade propõe que cannabis e endocanabinoides participam de processos de desenvolvimento neural, como o crescimento e a plasticidade de células do cérebro, o que pode explicar por que algumas mulheres aprendem a chegar ao orgasmo usando cannabis antes do sexo. Já a teoria da redução da amígdala sugere que cannabis pode reduzir a atividade nessa região do cérebro, ligada a respostas de medo a ameaças, melhorando as experiências sexuais e o orgasmo.

Endometriose

Endometriose é uma condição crônica que afeta cerca de 10 a 14% das mulheres e apresenta difícil manejo. Pesquisas sugerem que a microbiota intestinal e o sistema endocanabinoide (ECS) podem ter papel no desenvolvimento e progressão da doença. A interação do ECS com compostos da cannabis, incluindo THC e CBD, sugere um mecanismo para o potencial alívio da dor pélvica em mulheres com endometriose.

De fato, a cannabis tem mostrado eficácia no controle dos sintomas da endometriose, especialmente dor pélvica, transtornos gastrointestinais e humor. Um estudo com 252 mulheres portadoras de endometriose verificou que a forma inalada é mais eficaz para dor, enquanto a via oral é melhor para sintomas de humor e digestão. Outro estudo identificou que 1 em cada 10 australianas com endometriose usa cannabis para controlar dor e outros sintomas, sendo considerada a técnica de autogestão de dor mais eficaz. Interessantemente, mulheres com dor mais intensa recorriam mais à cannabis do que aquelas com sintomas menos graves.

Sintomas da Menopausa

A menopausa é uma fase natural na vida da mulher e pode trazer sintomas como ondas de calor, insônia, alterações de humor e ansiedade. Algumas recorrem à cannabis para controlar esses sintomas. Uma pesquisa transversal com mulheres com 35 anos ou mais, em Alberta, Canadá, mostrou que 34% relataram uso atual de cannabis, com mais de 75% utilizando por motivos médicos. As razões mais citadas foram sono (65%), ansiedade (45%) e dores musculares/articulares (33%). Entre as usuárias, 74% disseram que a cannabis foi benéfica para os sintomas. Usuárias de cannabis relataram sintomas da menopausa com maior frequência que não usuárias.

 

Women and Weed: A Comprehensive Guide to Cannabis and Women's Health: A middle-aged woman relaxing with a joint

O uso de maconha antes e durante a menopausa está aumentando.
 

Outra pesquisa sobre uso medicinal de cannabis durante perimenopausa e pós-menopausa revelou que 86,1% das participantes relataram uso atual, sendo que 78,7% para sintomas relacionados à menopausa. As formas mais comuns eram fumar (84,3%) e comestíveis (78,3%), e os principais sintomas tratados foram distúrbios do sono (67,4%) e humor/ansiedade (46,1%). Mulheres na perimenopausa relataram sintomas significativamente mais graves, como maior ansiedade e ondas de calor, e maior uso de cannabis para tratar sintomas emocionais em comparação às pós-menopáusicas.

Esses estudos sugerem que algumas mulheres estão usando cannabis para controlar sintomas da menopausa, principalmente distúrbios do sono e sintomas emocionais. No entanto, é preciso mais pesquisa para avaliar a segurança e eficácia da cannabis no tratamento da menopausa e criar recursos clínicos específicos para mulheres que buscam informações.

Conclusão

O uso de cannabis entre mulheres está aumentando, à medida que a substância conquista mais aceitação e legalização. Mulheres reagem de forma distinta à cannabis em relação aos homens, e a planta tem implicações específicas para a saúde feminina. Embora ainda não se compreenda plenamente os efeitos da cannabis na saúde reprodutiva das mulheres, cresce a preocupação sobre o consumo por gestantes e lactantes, seja de forma medicinal ou recreativa.

Se você é mulher e está considerando o uso medicinal da cannabis, ou não deseja interromper o consumo durante a gravidez e amamentação, é fundamental estar atenta aos potenciais riscos e benefícios e buscar suporte adequado para lidar com qualquer sintoma ou efeito colateral.



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