Cruzamento de Cannabis: Como Criar Sua Própria Variedade de Cannabis
- 1. A evolução das plantas de cannabis
- 2. Variedades landrace indica e sativa
- 2. a. Cannabis ruderalis
- 3. Por que criar novas variedades?
- 4. Características das plantas e como selecioná-las
- 4. a. E o autoflorescimento?
- 5. Herança de características
- 5. a. Traços dominantes e recessivos
- 6. A importância de testar fenótipos de cannabis
- 7. Técnicas de cruzamento de variedades de cannabis
- 7. a. Backcrossing
- 7. b. Selfing
- 8. Selecionando plantas fêmea e macho
- 9. Começando seu primeiro cruzamento de geração
- 10. Testando seus cruzamentos f1
- 11. Guia rápido de cruzamento de cannabis – passo a passo
- 12. Cruzamento de cannabis – perguntas frequentes
- 13. Conclusão
O cruzamento de cannabis exige muito tempo e basicamente consiste em cruzar uma planta macho com uma fêmea, podendo resultar em novas variedades com características únicas. Tudo o que você precisa fazer é combinar a genética de ambas as plantas de cannabis e refiná-la para obter um híbrido único, mas não é tão simples assim. Tenha em mente que, para a maioria dos cultivadores caseiros, criar novas variedades pode ser extremamente difícil devido à experiência e ao espaço necessários para fazer boas genéticas, principalmente se você pretende comercializar suas próprias sementes de cannabis. Mas, se o objetivo é criar uma variedade para cultivar em casa, não há necessidade de tanto trabalho; com apenas alguns cruzamentos, você pode produzir milhares de sementes para manter seu estoque sempre cheio. Então, se você quer aprender sobre cruzamento de cannabis e criação de novas variedades, continue lendo!
1. A Evolução das Plantas de Cannabis
Desde o início, as plantas de cannabis se cruzaram naturalmente e possivelmente criaram múltiplas variações da mesma variedade, mas devido ao cruzamento aleatório e não seletivo, o resultado não era uma nova variedade, mas sim uma versão melhorada da mesma genética. Há algumas décadas, os cultivadores têm feito o cruzamento seletivo para porcentagens elevadas de THC visando efeitos psicoativos e, mais recentemente, para benefícios medicinais do CBD, mas o cruzamento vai muito além disso. Existem muitos terpenos e canabinoides presentes na cannabis que só recentemente começamos a estudar, e esses compostos podem alterar significativamente os efeitos que a planta proporciona. Devido a essas descobertas, muitos criadores agora buscam novas características e não apenas altos níveis de THC e CBD.

Isso significa que não existe algo como a melhor variedade do mundo. Por exemplo, os cultivadores mais antigos geralmente preferem as variedades disponíveis nos anos 60 e, inclusive, preferem o efeito dessas variedades antigas mesmo que não tivessem níveis super altos de THC, como se encontra atualmente.
Felizmente, muitos bancos de sementes e criadores preservaram genéticas clássicas e landraces e agora podem criar genéticas modernas com base nas antigas ou elaborar variedades modernas com características semelhantes às das antigas. Com a popularização da cannabis nos últimos anos, atualmente você encontra centenas de variedades de cannabis com diferentes efeitos, aromas e perfis de canabinoides. Mas não se engane: todas as variedades de cannabis, tanto antigas quanto modernas, têm origem nas mesmas plantas: as landraces.
2. Variedades Landrace Indica e Sativa
Antes de ser fácil comprar sementes de cannabis de boa qualidade, os cultivadores viajavam pelo mundo em busca de sementes de variedades landrace indica e sativa para melhorar o que já tinham e também criar novas variedades. Essas landraces são variedades que crescem naturalmente em uma determinada região e, muitas vezes, são cultivadas pelos locais. Por serem únicas de uma determinada região, os cultivadores costumavam visitar diferentes lugares para encontrar variedades com traços únicos, como cor, sabor, aroma ou potência.
Após encontrar as sementes desejadas, cultivadores e criadores cruzavam essas plantas para passar essas características para novas variedades ou aprimorar as que já trabalhavam, o que acabou dando origem às variedades que conhecemos hoje. Por exemplo, diz-se que a famosa OG Kush foi criada a partir de landraces da Tailândia, Paquistão e Índia, lá em 1992, e até hoje é consumida, o que mostra a importância das landraces.
Essa busca por landraces ao redor do mundo já foi feita por inúmeras pessoas aventureiras desde o início dos anos 70 (ou até antes), mas ficou bem documentada graças à série "Strain Hunters". A partir de 2008, criadores de Amsterdam passaram a buscar e documentar a localização e recuperação de landraces de cannabis ainda não estudadas, registrando todo o processo em filmes.
O objetivo dessas missões é fornecer aos cientistas e médicos as variedades originais de cannabis, ainda não extintas, com o propósito principal de promover o conhecimento sobre a planta na área medicinal. Sempre que uma landrace se extingue, perdemos a possibilidade de fornecer à medicina suas propriedades únicas e poderosas. Depois que a análise científica é concluída, a variedade é liberada para fins de cruzamento.
A maioria desses filmes está disponível facilmente no YouTube. Se você tem interesse no processo de cruzamento de cannabis e na história da planta (e provavelmente tem, já que chegou até aqui), vale muito a pena assistir aos documentários Strain Hunters.
Cannabis Ruderalis
Além das landraces Indica e Sativa, existem as landraces Ruderalis, que não eram populares nos cruzamentos devido aos efeitos não serem tão potentes quanto Indica e Sativa, mas logo os criadores descobriram que essa planta possuía uma característica única: o autoflorescimento, ou seja, a Ruderalis poderia florescer automaticamente independente do ciclo de luz.
A primeira variedade ruderalis identificada foi encontrada no sul da Sibéria, por um botânico russo chamado D. E. Janischewsky, em 1924. Na época, Janischewsky estava estudando variedades selvagens de cannabis na região quando percebeu ter encontrado uma terceira espécie, distinta tanto da Cannabis Sativa quanto da Indica. Ele batizou de "Ruderalis", já que, em latim botânico, a palavra significa 'daninha' ou 'que cresce entre resíduos', exatamente como ele encontrou essa primeira Ruderalis. Embora esse primeiro exemplo tenha sido localizado na Sibéria, depois identificaram C. Ruderalis em diversas outras regiões como Ásia, Europa Central e Oriental e por toda a Rússia.
O crescimento era bem menos vigoroso do que certas landraces Sativa e Indica, com caules finos, fracos e poucos ramos. Ele se interessou tanto pela novidade que passou a cultivá-la e estudá-la. Logo percebeu que, embora as plantas fossem menores e com menos THC do que as outras duas espécies, tinham o temporizador genético para iniciar o florescimento automaticamente, não importa a luz. As variedades Ruderalis realmente possuem um teor de THC menor do que Sativa ou Indica, mas contam com altos níveis de CBD, e isso (além do autoflorescimento) fez os criadores se interessarem por elas no início dos anos 80.
Quando os criadores descobriram que poderiam aproveitar a característica do autoflorescimento, começaram a cruzá-las com genéticas Indica e Sativa, surgindo então as variedades autoflorescentes, com flores de alta qualidade e potência. As primeiras variedades autoflorecentes não eram nada potentes, mas com o tempo, os criadores aprimoraram tanto que hoje as autos modernas são tão potentes e bonitas quanto as não-autos, com um diferencial: o autoflorescimento.

Esse é apenas um exemplo de como o cruzamento permite basicamente "pegar" uma característica específica de uma determinada variedade e transmiti-la para a prole, mas apesar de parecer fácil, definitivamente não é. Se você pretende criar sua própria variedade, vai além de simplesmente cruzar algo interessante com outra planta; como criador, é necessário saber identificar os traços e como incorporá-los à sua linhagem, deixando de fora os indesejados.
Não é tão simples como pode parecer, pois as autos têm uma história cheia de erros antes das genéticas chegarem à qualidade que vemos hoje. Embora as origens das autos modernas ainda sejam debatidas, a maioria dos especialistas concorda que a primeira variedade autoflorescente comercial disponível foi a “Lowryder”, criada pelo breeder “The Joint Doctor”. Apesar de décadas de experimentação, nada tinha chegado ao mercado comercial que fosse interessante o suficiente para a comunidade.
Essa variedade era um cruzamento entre uma Ruderalis russa e uma Sativa mexicana produtora de muito THC, com resultado final mais puxado para Ruderalis e quase nenhuma psicoatividade ou variedade de canabinoides e terpenos que vemos nas autos atuais. Embora Lowryder tenha sido criticada por falta de vigor e potência, logo surgiu a “Lowryder 2”, que era mais potente e possuía um perfil terpênico mais interessante. Isso bastou para a comunidade se interessar pelas variedades autoflorescentes, impulsionando o boom das autos e trazendo todas as incríveis autoflowers que temos hoje!
3. Por Que Criar Novas Variedades?
Talvez você esteja se perguntando: se já há tantas variedades, por que criar novas? Bem, os breeders criam novas variedades para tentar oferecer algo que ainda não existe no mercado.
Assim como as variedades antigas tinham efeitos diferentes das atuais, é possível que algum breeder esteja começando agora um projeto e o resultado seja (de alguma forma) superior a tudo o que existe hoje — mesmo utilizando landraces. Isso ocorre porque cada planta é uma versão levemente diferente dos irmãos, então os descendentes terão traços misturados dos pais e, ao combinar diferentes variedades, há potencial para criar novas combinações de terpenos e efeitos.
Por exemplo, o cruzamento de cânhamo levou pesquisadores a descobrir uma nova forma de THC, Delta-8, que oferece efeitos similares ao THC tradicional, mas menos potentes, resultando em vários novos produtos de cannabis. Essa combinação genética entre duas espécies diferentes é chamada de cruzamento, e selecionar um traço específico para passar adiante enquanto deixa outros para trás é o chamado cruzamento seletivo. Isso significa que, para criar uma nova variedade, basta selecionar os traços que você quer e os que não quer, e depois cruzar as plantas conforme desejado.
Você não conseguirá criar uma variedade única apenas cruzando duas variedades diferentes, isso é uma tarefa difícil e há várias técnicas para isso, mas antes de aprendê-las, é essencial saber quais características uma planta de cannabis pode ter.
4. Características das Plantas e Como Selecioná-las
O primeiro passo antes de iniciar o processo de cruzamento é saber quais características você deseja que sua planta tenha; existem milhões de combinações possíveis, e é fácil se perder por conta das diversas opções, então é essencial definir seus objetivos.
Na tabela a seguir, você confere as principais características que devem ser conhecidas antes de começar um projeto, mas existem outras: quanto maior o pool genético, mais opções você terá — só que também fica mais difícil manter determinado traço estável. Por exemplo, ao buscar uma cor específica, é difícil estabilizar uma variedade para que os descendentes tenham essa cor, pois isso pode exigir deixar outros traços de lado.
Para definir seus objetivos, será preciso elaborar um planejamento de cruzamento considerando as características desejadas; entre as mais comuns, estão:
| Características da Cannabis | ||
|---|---|---|
| Padrões de crescimento | Robustez | Flores |
| Alta ou baixa | Velocidade de crescimento | Aroma |
| Frondosa ou com poucas folhas | Resistência a pragas | Cor |
| Tempo de floração | Se cresce em clima quente ou frio | Efeitos |
| Produção | Resistência dos ramos e caule | Teor de canabinoides |
Outro exemplo é ao buscar potência. Ao cruzar para altos níveis de THC ou CBD, saiba que existem diversos fatores que influenciam efeitos e potência: há mais de uma dezena de canabinoides ainda pouco estudados e os terpenos também têm papel fundamental nos efeitos, então você pode buscar alto THC e não obter o resultado esperado por conta do perfil de terpenos ou do conteúdo de CBD.
Isso significa que não é necessário cruzar só por alto teor de THC, por exemplo, para efeito potente; o importante é conhecer todas as características e como elas se relacionam. E lembre-se: antes de começar, é indicado já ter plantas-mãe com as características desejadas definidas, ou será preciso primeiro cruzar pais até obter esses traços antes de iniciar sua nova linhagem.
E o Autoflorescimento?
Cruzar autos é igual cruzar fotoperiódicas, mas em vez de cruzar fotoperiódica com fotoperiódica, você vai cruzar fotoperiódicas com Ruderalis (ou autos). Para isso, é necessário cruzar autos com fotoperiódicas por pelo menos 4–5 gerações para que a maioria da prole herde a característica autoflorescente. O número de plantas por geração varia conforme o breeder, mas geralmente recomenda-se no mínimo 100 plantes em cada geração, para visualizar todos os traços que o cruzamento pode gerar e selecionar os melhores.
5. Herança de Características
Além de saber quais traços deseja, é fundamental conhecer características dominantes e recessivas nos cruzamentos.
Traços Dominantes e Recessivos
Traços dominantes aparecem sobre os traços recessivos, enquanto traços recessivos ficam "escondidos" até que haja um par deles na mesma planta — somente assim se tornam evidentes. Por exemplo, se você tem duas plantas em que a maioria da prole produz flores verdes, mas algumas poucas têm flores roxas, isso indica a presença de um traço recessivo para flores roxas. Para fixar essa característica, é preciso cruzar dois descendentes portadores desse gene, assim todas as sementes carregam o par de traço recessivo para flores roxas e todas as plantas vão expressar essa cor.
Dominar a diferença entre traços dominantes e recessivos pode ser complicado, então aprender um pouco sobre genética e herança genética te dará enorme vantagem. O fundamental é entender que todos os seres vivos recebem duas cópias de cada gene — uma do pai, outra da mãe — e como elas interagem afeta os fenótipos da planta. Como dito, certos genes são dominantes (sempre se manifestam com apenas uma cópia), enquanto recessivos só são expressos com duas cópias. Veja alguns exemplos:
Dominância Completa
Por exemplo, se uma planta pode ter flores verdes ou roxas e os genes para verde são dominantes enquanto para roxo são recessivos, ela vai exibir ou flores verdes ou roxas, sem mescla de cor.
Na imagem abaixo, "G" representa o gene dominante e "P" o recessivo. Toda a prole expressa flores verdes mesmo carregando o gene roxo na primeira e segunda geração, mas, ao cruzar híbridos F1 entre si (geração F2), 25% apresentarão flores roxas — mas isso pode ser mais complexo na prática.

Durante as duas primeiras gerações, nenhuma prole desenvolve flores roxas, já que só têm uma cópia do gene “P”. Porém, ao cruzar F1 entre si, adiciona-se mais cópias genéticas — resultado: na F2, 25% exibem flores roxas. Só que, em muitos casos, não é tão simples.
Isso acontece porque nem todo gene é simplesmente dominante ou recessivo; às vezes, eles interagem e criam novas características. É aí que há dominância incompleta.
Dominância Incompleta
Quando não existem genes dominantes para se impor um sobre o outro, eles interagem parcialmente. No exemplo da imagem, cruzando uma planta com gene “G” (verde) e outra “P” (roxo), se a dominância for incompleta, os descendentes não terão só verde apenas ou roxo, mas uma mistura: flores rosas.
Ao contrário do exemplo anterior, cruzar genes assim faz com que a prole exiba flores rosas, pois nenhuma versão é completamente dominante.

Nesse caso, como visto na imagem, a primeira geração (híbridos F1) exibe apenas flores rosas, pois só existe uma cópia de cada gene e nenhum se sobrepõe totalmente. Ao cruzar F1 entre si, agora teremos mais cópias disponíveis (geração F3), então há 50% de chance de flores rosas e 25% de chance para verde ou roxo. Isso é só um exemplo com cor, mas toda característica será impactada nesses cruzamentos — de cor a aroma, tipo de efeito e assim por diante. A melhor maneira de descobrir genes dominantes, recessivos ou ocultos é cruzar a prole com os pais (backcross) para visualizar novos traços.
Ao fazer backcross, você enxerga mais variações possíveis nos descendentes e consegue identificar melhor que cruzamentos repetir para fixar o traço desejado. Após um tempo trabalhando a genética, os traços ficarão mais estáveis, permitindo cruzamentos consistentes para o traço específico sem precisar começar do zero. Antes disso, a prole mostrará muita variedade — e esses traços também variam conforme o ambiente onde as plantas crescem. Então… o que é fenótipo?
6. A Importância de Testar Fenótipos de Cannabis
Fenótipo é basicamente uma combinação dos vários traços que uma determinada variedade de cannabis pode exibir, incluindo todos os da tabela do tópico 4. Os traços (ou fenótipos) expressos por uma planta são fortemente influenciados pelo ambiente de cultivo, ou seja:
Genética + Ambiente de cultivo = Fenótipo
Por isso, é possível cultivar a mesma variedade indoor e outdoor, por exemplo, e obter resultados completamente diferentes. Apesar de não ser igual, é como as características herdadas dos pais em uma criança – se um é alto e o outro baixo, o filho poderá ser alto ou baixo; se ambos são altos, a probabilidade de filhos altos aumenta, assim como ocorre com fenótipos da cannabis. Variedades ainda não estabilizadas normalmente apresentam mais de um fenótipo — o que significa que duas plantas da mesma variedade podem exibir traços ligeiramente diferentes ou até crescer completamente diferentes, enquanto linhagens mais estabilizadas provavelmente crescerão iguais, ou com variações mínimas — isso é feito pelo cruzamento seletivo garantindo que só existam genes necessários para aquele resultado.
Mesmo com genética estável, o ambiente pode alterar o fenótipo expresso. Se você faz um clone de uma planta (cópia genética exata), ela crescerá igual à planta-mãe SE for no mesmo ambiente; com condições diferentes, pode surgir um fenótipo totalmente novo.
Ou seja, plantas da mesma variedade crescerão muito parecidas em ambiente frio, mas coloque uma em frio e outra em calor e provavelmente os fenótipos serão diferentes. Isso vale para todos os elementos do cultivo, como:
- Temperatura;
- Umidade;
- Nutrientes;
- Iluminação;
- Frequência de irrigação, entre outros.
Lembre: variedades com fenótipos diferentes em condições diferentes são totalmente normais, até mesmo linhagens estabilizadas podem ter um ou outro fenótipo diferente. Mas, se todos os descendentes mostram traços completamente diferentes, talvez seja hora de estabilizar ainda mais a sua genética — e existem vários métodos para isso.
7. Técnicas de Cruzamento de Variedades de Cannabis
Como dito, uma variedade estabilizada apresenta resultados mais consistentes e, para chegar lá, é preciso utilizar técnicas como backcrossing e selfing até que as plantas-mãe produzam descendentes iguais ou praticamente idênticos. Isso garante que breeders e cultivadores saibam exatamente o que esperar daquela genética.
Backcrossing
Backcrossing é uma técnica usada para estabilizar variedades: você cruza uma planta com um de seus pais ou com uma planta geneticamente parecida, tornando mais provável que a prole herde os genes desejados — por exemplo, para cor, aroma, sabor, efeito etc.
Se quiser estabilizar uma característica (ou mais), é só cruzar um macho da prole com a mãe, aumentando as chances de transmitir certo traço para a geração seguinte.

Selfing
Diferente do backcross, o selfing pode ser feito com apenas uma planta fêmea e um de seus clones. Para isso, você precisa reverter o sexo do clone e fazer autopolinização da planta-mãe. Para reverter o sexo, os breeders estressam uma planta fêmea em floração para que ela produza sacos de pólen masculinos; esse pólen é então usado para polinizar a planta-mãe. O resultado são sementes que expressam mais frequentemente as características desejadas.
Vale lembrar que o backcross geralmente é preferido, pois forçar plantas fêmeas a produzirem pólen pode aumentar o risco de hermafrodismo nos descendentes.
8. Selecionando Plantas Fêmea e Macho
Tanto no backcross quanto no selfing, você precisa de pelo menos uma planta-mãe para produzir sementes. Conseguir plantas fêmea e macho é simples: basta cultivar um pacote de sementes regulares. Porém, para obter sementes de qualidade, é preciso selecionar os exemplares que expressam os traços desejados.
Selecionar uma planta fêmea é fácil: basta cultivá-las e ver como crescem — se for boa, use no cruzamento; se não gostar, descarte. Já escolher o macho é bem mais difícil, pois ele não produz flores, então você não sabe como influenciará os buds. O jeito é cruzá-lo com várias fêmeas diferentes e observar como ele influencia a prole, permitindo identificar os machos que transmitem traços específicos às filhas.

Os machos de cannabis são provavelmente a parte mais importante do cruzamento porque alguns traços que carregam ficam "silenciados". Só dá para descobrir o que ele transmite realmente ao cruzá-lo e observar os resultados das fêmeas. Você pode, por exemplo, encontrar um macho que faz com que os buds das filhas fiquem com cheiro de chiclete — mas só dá para saber criando sementes e cultivando-as.
Por conta desses traços "silenciados", o processo exige tempo, esforço e anotações para entender quais características ele carrega e transmite à prole fêmea.
9. Começando Seu Primeiro Cruzamento de Geração
Após selecionar as plantas macho e fêmea, os descendentes desse primeiro cruzamento se chamam híbridos F1 (primeira geração). Quando os pais passam por várias gerações de backcross, selfing, cruzamentos entre parentes próximos ou quando você cruza plantas completamente não relacionadas (sem ancestrais em comum), os descendentes F1 apresentam algo chamado vigor híbrido (ou heterose).
O vigor híbrido pode ser usado para aumentar rendimento, uniformidade e vigor. Isso faz com que os descendentes desses pais cresçam mais rápido, produzam maiores rendimentos e sejam mais fortes que qualquer dos pais. Mas isso só acontece nos híbridos F1 entre dois pais; cruzando os F1 entre si, eles perdem o vigor híbrido.
O vigor híbrido também é possível entre F1 de plantas sem parentesco, mas nem sempre é o caso, pois às vezes surgem traços indesejados. Os breeders podem usar a heterose a favor: depois de identificar um bom F1, basta manter mãe e pai para continuar produzindo sementes F1 do mesmo cruzamento, garantindo vigor híbrido para todos os descendentes.
Esse método não é exclusivo da cannabis — exemplo: a maior parte do milho consumido é cruzamento F1. Desde os anos 40, agricultores cultivam sempre a primeira geração para garantir sabor, aparência e colheita na mesma época.
Assim como na cannabis, perceberam que os filhos de primeira geração geralmente são melhores que os pais, então seguem cruzando sempre os mesmos pais para colher F1 atrás de F1.
10. Testando Seus Cruzamentos F1
Quando sua genética estiver pronta, é importante ter ideia do que cada planta carrega, mas é quase impossível testar em todas as condições possíveis — por isso, recomenda-se que diferentes cultivadores testem sua genética. Assim, você compreende os fenótipos possíveis em diversos ambientes, agregando informações valiosas ao seu projeto.
Testar os cruzamentos também ajuda a identificar fenótipos “negativos” ou características que aparecem em determinadas condições de cultivo, permitindo cruzar e eliminar esses traços. Por exemplo, se sua genética expressa odor, sabor ou efeito indesejado, você sabe em que condições isso acontece e pode agir para excluir o traço indesejado.

Por outro lado, outros cultivadores podem encontrar traços "ocultos" que não apareceram no seu cultivo, permitindo que você os estabilize caso goste deles.
Mas lembre-se: testar a genética não é sinônimo de ter criado uma variedade! Testar cruzamentos F1 é só o começo. Conforme dito, depois de testar os descendentes, colete dados e siga cruzando sua variedade. Ou seja, entre as F1, selecione uma planta macho ou fêmea (para backcross) ou fêmea (para selfing) e siga desenvolvendo sua linhagem por gerações (F2, F3, F4, etc.) até alcançar os traços desejados e poder dizer que criou sua própria variedade.
11. Guia Rápido de Cruzamento de Cannabis – Passo a Passo
Ok, falamos bastante acima — talvez você esteja se sentindo sobrecarregado com tanta informação, né? Faz parte! Vamos simplificar com um passo a passo resumido do processo. A primeira coisa: sempre rotule cada muda ou clone usado no projeto. Ao juntar muitas plantas, fica fácil esquecer qual é qual — tire o adivinhômetro disso e rotule tudo! Daqui a pouco você vai agradecer por esse trabalho extra.
- Escolha os pais – Não importa o estilo de cruzamento, você precisará de plantas-pai. Se possível, escolha pelo menos 2 mães e 2 pais, garantindo boas chances de sucesso e variedade de traços para selecionar. Lembre-se: mantenha machos e fêmeas separados para evitar polinização indesejada.
- Colete o pólen – Certifique-se de coletar pólen somente de sacos totalmente desenvolvidos, porque pólen imaturo gera descendentes fracos. Normalmente, demora cerca de um mês para chegar ao ponto certo. O jeito mais fácil de coletar é usar um saco plástico tipo zip lock em volta dos sacos de pólen e sacudir bem. Use o pólen o quanto antes; se sobrar, guarde no freezer por no máximo 3 meses — quanto mais fresco, melhor.
- Polinize os sítios de flores – Há muitos jeitos de polinizar uma fêmea, mas recomendamos um pincel pequeno. Antes de tudo, isole a fêmea escolhida do resto da cultura e desligue qualquer ventilador próximo. As fêmeas estão prontas para pólen cerca de 3–4 semanas após o início da floração. Cubra a ponta do pincel estéril com pólen e aplique cuidadosamente nos sítios florais desejados. Repita este processo 3 vezes, com intervalo de cerca de 6 horas, para garantir a polinização.
- Forneça os cuidados adequados às plantas-mãe – Após polinizar, dê a essas mães a melhor chance de produzir sementes de alta qualidade. Durante a formação das sementes, as plantas precisam de mais nitrogênio que o usual das fórmulas de floração, por isso volte para o fertilizante de crescimento logo que as sementes começarem a se formar. Demora cerca de 3 a 5 semanas para as sementes amadurecerem, ponto em que devem estar quase caindo dos cálices.
- Germine e plante as sementes – Chegou a melhor parte! Plante as sementes e registre todos os traços importantes: qual o crescimento, altura, tempo de floração, perfil de terpenos, potência de THC e CBD, tamanho da colheita, etc.
- Escolha as melhores plantas e recomece o processo – Agora você já completou a primeira geração, mas longe de terminar. Cruzar e criar novas variedades de cannabis é um trabalho quase infinito, com possibilidades praticamente ilimitadas. Se você gosta do processo e tem tempo e espaço, continue aprimorando para criar as melhores variedades possíveis. Divirta-se — é para isso, afinal!
12. Cruzamento de Cannabis – Perguntas Frequentes
Pronto! Agora você já sabe praticamente tudo sobre genética de cannabis e cruzamento. Muita informação, certo? Sim, e pode ser um pouco avassalador absorver tanta coisa nova assim. Vamos resumir um pouco e responder as dúvidas mais comuns ao criar suas próprias variedades...
É difícil criar novas variedades de cannabis?
Depende do que você considera difícil. Cruzar cannabis não é ciência de foguetes, mas requer paciência e uma pitada de criatividade. Criar variedades novas e estáveis leva tempo. Às vezes, MUITO tempo, e tudo melhora se você mora em um lugar onde é legal cultivar e cruzar sem medo de problemas legais.
Como discutimos, todas as variedades têm uma gama de características e elas podem se expressar de formas diferentes em cada planta. Cada variedade apresenta vários fenótipos e, quanto mais você trabalhar para eliminar traços indesejados, mais estável ela fica — quase sem variação entre as plantas. O termo científico para isso é homozigose, mas os breeders preferem o termo "fixar a variedade".
Quanto tempo leva para criar uma variedade estável?
Difícil afirmar, pois depende do objetivo do cruzamento, das condições e da diversidade genética no projeto. Em geral, estabilizar uma variedade pode levar de um ano para muito mais. Costuma-se cruzar várias gerações para fixar genes homozigotos, e esse ciclo pode estender o prazo.
Quais são as etapas típicas do cruzamento de cannabis?
1. Escolha do material genético
Encontre duas variedades de cannabis distintas com características que você deseja combinar.
2. Cruzamento
Para criar descendentes do material genético escolhido, faça a polinização manualmente (umente a flor de uma planta com o pólen de outra). Antes, cultive uns machos e fêmeas de cada variedade para garantir a linhagem mais forte possível.
3. Cultivar e selecionar
Assim que nascerem os descendentes, cultive-os por pelo menos duas gerações para selecionar traços desejáveis e eliminar indesejáveis (estrutura dos buds, sabor, aroma, rendimento, potência, etc.).
4. Back-breeding
Após cultivar as duas gerações, comece a cruzar descendentes com os pais (back-breeding) para garantir que características selecionadas sejam mantidas/adaptadas. Isso cria uma genética mais estável, reduzindo as variações entre fenótipos a cada geração.
5. Perfil de canabinoides e terpenos
Se quiser, envie a variedade para análise laboratorial de canabinoides e terpenos. Quanto mais se aprende sobre a planta, menos o antigo conceito “sativa vs indica” importa; o efeito de uma variedade depende muito mais da estrutura total de canabinoides e seu perfil de terpenos.
6. Comercialize, nomeie e venda
Com um bom projeto de cruzamento, é hora de comercializar a nova variedade — embalagens, preços, escolha do nome, etc.
Se estiver cultivando apenas para si, ignore essa etapa. Mas criar nome e logo da sua própria variedade também é uma diversão à parte!
Como prever a porcentagem de traços herdados pelos descendentes?
Não dá para prever exatamente quanto cada planta herdará dos pais, mas a herança mendeliana ajuda a entender o padrão em geral. Segundo esse padrão, um descendente tem 50/50 de chance de receber traço dominante ou recessivo de cada pai. Se souber quais são os dominantes e recessivos, é possível prever quantos expressarão tal característica.
Ou seja, 50% dos descendentes serão equilibrados, 25% se parecerão mais com a mãe e 25% mais próximos do pai. Na prática, o cruzamento é mais complexo, pois muitos traços variam — mas a herança mendeliana é útil para pensar o processo. O ideal é cultivar pelo menos duas gerações para identificar traços, e depois cruzar de volta com os pais para garantir fixação.
O que é depressão por endogamia? Como evitar isso no cruzamento?
Depressão por endogamia é a redução de sucesso no cruzamento quando as plantas são parentes próximos demais. É um problema comum, mas evitável com alguns cuidados. Cannabis — assim como humanos — precisa de ampla diversidade genética para preservar saúde e sustentabilidade da linhagem. Muitas gerações de cruzamentos e backcross podem fixar traços desejados, mas é preciso evitar exagerar e cortar a diversidade.
Para evitar depressão por endogamia, certifique-se de cruzar plantas pouco aparentadas. Avalie o histórico das plantas usadas, verificando pelo menos cinco gerações sem cruzamentos próximos. Outra forma é usar programas como F1, F2 ou backcrosses: cruzar plantas distantes e, em seguida, retrocruzar com um dos pais para ampliar diversidade e consolidar traços.
Como são produzidas as sementes feminizadas de cannabis?
Sementes feminizadas se obtêm cruzando duas plantas fêmea. Assim, somente traços femininos são expressos na prole, eliminando machos e dispensando triagem manual. Esse processo não é simples, mas basta forçar uma planta fêmea a virar hermafrodita. Isso ocorre por estresse intenso ou aplicação de prata coloidal. Prata coloidal? Sim, um líquido que, ao ser aplicado em fêmeas, força o hermafroditismo.
Ao virar hermafrodita, a planta produz pólen como um macho. Esse pólen é usado para polinizar outra fêmea (da mesma variedade ou outra, se buscar diversidade genética), resultando em sementes feminizadas. Elas são ideais para o cultivo, pois eliminam machos, assegurando buds 100% livres de sementes. No cruzamento, lembre que sementes feminizadas não são sempre recomendadas (podem reduzir diversidade genética e aumentar chances de depressão por endogamia); se possível, prefira sementes regulares nos programas de breeding.
É fácil cruzar variedades autoflorescentes em casa?
Nem tanto. Por conta do temporizador genético embutido, não é possível forçar o ciclo vegetativo prolongado nas autos. Ou seja, você não consegue manter plantas-mãe por várias gerações para backcrossing, e ainda precisa cruzar só com plantas que tenham o marcador auto. Isso complica o processo, mas com pesquisa, paciência e atenção é possível sim cruzar autos em casa. De modo geral, deixe esse trabalho aos especialistas.
Por que há tanta variabilidade genética entre variedades de cannabis?
Principalmente pelo processo de cruzamento e pelo fato de a cannabis ser nativa de várias partes do mundo. Ela evoluiu separadamente em diferentes continentes durante séculos, o que resultou em genética singular em cada região. O breeding potencializa ainda mais as diferenças, pois seleciona e combina plantas para traços específicos, ampliando a variabilidade. Entender a linhagem genética é essencial para prever as características da variedade resultante.
Como cruzar para obter uma variedade roxa?
Assim como em qualquer traço, para obter uma variedade roxa comece pelos pais e trabalhe para fixar os genes adequados. As roxas geralmente descendem de plantas com alto teor de antocianinas, responsáveis pelos tons escuros. Selecione plantas com os genes certos, cruze com parceiros que também possuam tais genes, e repita o processo até criar a variedade desejada.
Luz de qualidade e temperaturas baixas também ajudam. A maioria das roxas exibe tons mais vivos quando há pelo menos 7°C de diferença entre dia e noite. Menos luz também pode intensificar o pigmento da variedade roxa.
Por quanto tempo o pólen de cannabis pode ser armazenado?
Pólen de cannabis é muito frágil – em poucos dias à temperatura ambiente já perde viabilidade. O ideal é armazenar num local fresco, escuro, temperatura constante e baixa umidade (cerca de 40%). Assim, dura até um ano.
É possível congelar para guardar mais tempo, mas isso deve ser feito com cuidado, pois descongelar pode comprometer sua viabilidade. Sempre que possível, armazene em freezers pouco abertos; variações de temperatura podem matar o pólen.
13. Conclusão
As variedades disponíveis nos dispensários passaram por anos e anos de cultivo e aprimoramento, então tenha em mente que breeding requer tempo e paciência. E lembre ainda: você provavelmente vai passar por centenas de variedades razoáveis até encontrar uma realmente diferenciada, e mesmo depois ainda será preciso fixar os traços — não é nada fácil, mas vale a pena. E nunca esqueça, antes de começar sua linhagem, rotule cada planta ou clone — perder a identificação complica muito as coisas, especialmente se estiver lidando com muitas plantas!
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Referências Externas
- Cannabis Genomics, Breeding and Production. - Backer, Rachel & Mandolino, Giuseppe & Wilkins, Olivia & ElSohly, Mahmoud & Smith, Donald.
- The characterization of key physiological traits of medicinal cannabis (Cannabis sativa L.) as a tool for precision breeding. - Naim-Feil, Erez & Pembleton, Luke & Spooner, Laura & Malthouse, Alix & Miner, Amy & Quinn, Melinda & Polotnianka, Renata & Baillie, Rebecca & Spangenberg, German & Cogan, Noel.
- Cannabis cultivation: Methodological issues for obtaining medical-grade product. - Chandra, Suman & Lata, Hemant & Elsohly, Mahmoud & Walker, Larry & Potter, David.
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